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Educar: bater por amor ?
Nelson Trindade - 2009
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A  aceitação implícita e inconsciente dos “zombies sociais” leva muitos pais a confessar:

Não concordo com bater,
mas uma palmada no momento preciso
dá resultado e funciona bem.
 
Mas o bater dá resultado em quê? Funciona bem para quê?

Se analisarmos este problema, o seu foco é alterar um comportamento considerado negativo ou desviante. Aprofundando:

1. Qualquer comportamento é sempre a expressão de uma decisão

2. Qualquer decisão é sempre uma opção de uma alternativa (eventualmente entre várias) construída a partir do significado construído sobre as informações recebidas e consideradas relevantes pelo observador.

3. este processo de construção de relevância e significado é sempre um processo subjectivo e que tem implicado todo o indivíduo (seu passado, seu presente e seus sonhos para o futuro) (vide Freud, Yung e Erikson, entre outros).

4. O inicio deste processo e que vai detonar todo o funcionamento é a mensagem inicial a que o comportamento vai responder.
Em esquema:
A agressão
não faz parte da amizade
nem do amor !
Um indivíduo vai com um cachorro à praia.
Nesse mundo cheio de cheiros novos, o cachorrito corre, afasta-se, cheira, bisbilhota, corre de novo, afasta-se de novo...
O dono chama, torna a chamar, grita, torna a gritar... em vários tons... e o cão continua na sua exploração.
Finalmente regressa, o dono decide educá-lo e bate-lhe para ele aprender a não fugir e regressar quando ele chama.
O cão aprende, mas não o que o dono espera:
- Não devo vir para o pé dele porque me faz sofrer, e
- quando me chama é para me bater.
Mas funciona, porquê ?
Os pais vão com um filho de 2 anos à praia.
Nesse mundo de areia agradável e água atractiva a criança resolve brincar dentro de água.
Os pais com medo que se afogue resolvem educá-lo e zangam-se com ele, talvez com gritos, talvez com uma palmada educativa.
A criança aprende:
- Se entro dentro de água os meus pais zangam-se e eu sofro.
- Se eles não virem, não se zangam, portanto posso ir brincar para lá.
Os pais afastam-se um pouco e a criança vai brincar para as ondas. Os pais tornam a educá-lo, e a criança aprende:
                   - Tenho que esperar que eles estejam mais longe.
A criança é inteligente e lógica, mas os pais concluem que é estúpido... porque não aprende o que lhe ensinam.
Mas funciona! ... Porquê ?
Analisemos, em pormenor, cada um dos casos.

No 1º caso, o cão aprende rapidamente que “aquele indivíduo significa um  PERIGO sério” e de forma instintiva adopta uma das possíveis defesas perante o perigo (que, a par de outras, todos os animais possuem) que é “ficar quieto”. Assim, quando se começa a afastar e o dono grita, ele põe-se QUIETO:

- o dono fica contente e pensa: aprendeu a não se afastar;
- o cão fica contente e pensa:  escondi-me e o perigo passou.

Neste par comunicativo “inteligência-estupidez” o resultado convém aos dois.

Quando o cão está longe e o dono chama, ele deixa tudo e aproxima-se do dono. Com tanto ensino que sofreu de levar pancada quando regressa, deixou de ser um animal feliz e aprendeu a ser um animal masoquista e acomodatício, pois a transformação educativa foi:

- Lá vou levar pancada ... que bom!
OBS: Um cão feliz quando se aproxima do dono abana a cauda.
Nestes casos, ou traz a cauda tensa (perigo) ou, em casos
mais graves, traz a cauda entre as pernas (medo, terror).


No 2º caso, a criança (que é sempre inteligente) não recebe os dados correctos para pensar pois recebe duas informações justapostas: não ir para dentro de água e os “pais zangarem-se” se ele o faz.

A intenção educativa é criar  na criança uma espécie de reflexo enxertado (vide Pavlov) de modo que juntando as duas informações se  provoque a decisão de “não ir para dentro de água”, porque a 2ª (zanga) vai arrastar a 1ª, como um mero apêndice sem significado próprio. Mais tarde em adulto dirá: “Não sei o que quer dizer, mas obedeço” ou “Não concordo, mas obedeço”. Esta última posição é muitas vezes dita publicamente (TV) como uma posição digna, moral e eticamente de grande valor (vide rescaldo-actas do Julgamento de Nuremberga)

Simplesmente, nesta fase ainda primária do educar, a criança ainda tem autonomia (ainda não está castrada) para poder construir outra decisão (lateral à pretendida), por ex.  “se os pais já não estiverem a ver, não há perigo de eles  se zangarem logo posso ir para dentro de água”.

Quando está bem educada, esta autonomia de “fuga lateral” já não existe, apenas cumpre. Nesta fase final, não percebe o que se passa, não está interessado em saber, desiste de perceber, apenas obedece ao “chefe” (ou quem o substitui), esteja ele presente ou não.

Este método educativo (se intensa e extensivamente aplicado) obtém os resultados pretendidos exactamente por enfraquecer a capacidade de tomar decisões, reduzindo a compreensão da situação e aumentando a dependência de um “poder decisório” externo. Ele é o motor de qualquer processo autoritário.
A semente de “zombies sociais” é criada e este resultado será mais tarde intensificado e utilizado em várias situações:
Charlot e
“Zobies sociais”
em
“Tempos
        Modernos”
O “bater” é uma informação adicional que não tem entrada neste fluir, mas apenas o vai curto-circuitar e fazer nascer um comportamento “estranho”, parasita em relação ao fluir natural do individuo.

Em esquema:
”Órgão que deixa de funcionar ... atrofia”
Como conclusão final:
YES, SIR !
No caso da criança, a solução mais correcta e consentânea com os valores contemporâneos seria aproveitar o problema da praia para potenciar a sua capacidade de tomar decisões, mediante o aumento de lucidez sobre a situação.

Assim, devem ser fornecidas 2 informações:

-  “não ir para dentro de água” e o
-  “eventual perigo que  daí pode resultar”,

deixando a “zanga dos pais” fora da equação.

Em esquema:
No método da “lucidez”, o esquema é:
numa luta de poder entre a autoridade e a obediência, entre a imposição e a aceitação, com o argumento muito célebre de “porque é...”, ou mais ditatorial de “porque eu quero...”, em qualquer dos casos sempre humilhante.
com eventuais conversas interessantes sobre o que acontece quando a boca/nariz estão dentro de água e se tenta respirar, pensar sobre o que é um tubo de respirar dentro de água, o que sentem/pensam com os pés dentro de água, ou os joelhos, ou a barriga, etc., e escolherem até onde querem/podem ir, se é “melhor” (confortável, seguro, agradável, etc) em água calma ou com ondas, o que se pode fazer se cai, etc,, são sempre conversas deliciosas porque inteligentes, comunicativas e, ás vezes, com perguntas simples de respostas complicadas.*

* - Se os peixes respiram com guelras, porque é que os Hospitais não nos põem guelras para virmos para a praia ?

(Esta pergunta significa que já aprendeu o perigo do afogar, sem ser preciso trazer a zanga dos pais para a conversa)

Dá gosto ver uma criança de 2, 3 anos a pensar, a gostar, a aprender e a construir as suas decisões e a analisá-las. Noutras palavras, dá gosto ver a alegria da conquista de autonomia... e prazer que daí resulta.
Existem 3 variáveis:   
. entrar dentro de água
. perigo daí resultante
. zanga/controlo dos pais

que se relacionam entre si:
No método da “zanga”, o esquema é: