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Autoridade, Aprendizagem e Direito ao Erro
Nelson Trindade
Dicas
Pode-se levar a mula ao chafariz, mas
não se pode obrigar a  mula a beber água.
                                                                                                       Ditado popular
Se definirmos indisciplina como um conjunto de relações negativas e destrutivas de uma situação (conjunto de pessoas e acções), poder-se-á perguntar se a disciplina irá criar relações positivas e construtivas ?

A resposta óbvia é que isso não é necessariamente verdade.
Um campo de concentração, um quartel, uma escola, ou uma família bem disciplinados não têm necessariamente relações positivas e construtivas entre si, apesar de não existirem actos negativos e destrutivos da situação (indisciplina).

O problema é mais complexo do que o simples dilema primário OU (indisciplina)...OU (disciplina).

Na perspectiva da aprendizagem, a questão a discutir não é o dilema indisciplina-disciplina, mas sim, o binómio:

                       Relações positivas e construtivas (não indisciplina)
                       ou
                       Relações negativas e destrutivas (indisciplina)


Considerando que aprender (e não apenas ser instruído) implica decisões de escolha entre uma gama de possibilidades e, por sua vez, escolher obriga a avaliar vantagens e inconvenientes numa intensificação do esforço do lóbulo pré-frontal no seu papel de “ser observador”, então uma situação de indisciplina (relações negativas e destrutivas) tornará este processo bastante difícil.

É assim lógico e natural que, quando a aprendizagem é real, os aprendentes estão implicados e interessados em aprender, portanto, não só não querem essa perturbação, como não a criam, nem sequer a consentem. Deste modo, a indisciplina não existe, nem é possível.

A solução para o problema da indisciplina no ensino-aprendizagem:

não é
              instalar  disciplina, usando  mais autoridade
mas sim
              desinstalar indisciplina, intensificando a aprendizagem.


Na realidade, não existe apenas indisciplina versus disciplina, pois também pode existir outra alternativa que é não-indisciplina.


Num exemplo, um conjunto de pessoas a sair por uma porta poderão:

1. lutar e empurrar-se entre si (indisciplina),
2. serem militarmente enquadrados numa formatura (disciplina),
3. ou de forma consciente e autónoma coordenarem-se entre si (não-indisciplina).

Não parece ser viável que seja fácil passar da 1ª para a 3ª alternativa através do uso da autoridade disciplinar.
Normalmente, com a imposição da disciplina a situação fica resolvida (“ganha-se a batalha”), mas as pessoas não alteram posições e preparam-se para um segundo confronto através de um eficaz aumento do contra-poder (“perde-se a guerra”).

No plano do ensino-aprendizagem, esta solução pelo modelo indisciplina-disciplina tem um efeito perverso importante, principalmente quando é eficaz, isto é, quando se consegue que através da disciplina se acabe com a indisciplina, o que permite pôr a questão:

com este método, qual é o preço que se paga na área da aprendizagem?

Por outras palavras, se o ensino se destina a criar aprendizagem, na alternativa em que ele usa a disciplina como suporte para o seu funcionamento, essa solução facilitará ou dificultará a sua missão/objectivo que é ensinar ?

Em síntese,
                  a autoridade disciplinar no ensino facilita ou prejudica a aprendizagem?

Para procurar uma resposta, surgem três questões:
1. Aprender:  o que é ?
2. Autoridade: como funciona?
3. Ensinar: como fazer ?

Aprender:  o que é ?

A aprendizagem significa a criação de novas conexões nervosas no córtex do aprendente. Implica portanto plasticidade de mudança do sistema nervoso.

Neuroplasticidade é o termo usado para expressar a capacidade que o córtex tem em criar novas redes de neurónios, quebrando e estabelecendo novas ligações.

Um neurónio tem entre 1000 e 10.000 “portas” (sinapses) para se ligar a outros neurónios, criando assim as redes. Como o córtex tem cerca de 100.000 milhões de neurónios, as hipóteses de fazer redes são infinitas, se também considerarmos as ligações inter redes.

Por exemplo, a “rede” de somar, tem que estar ligada à “rede” de números, à “rede” de espaço (13 e 31 têm os algarismos em diferentes posições no espaço), à rede da lateralidade (em 13 o “1” está à esquerda e em 31 está à direita), etc.

Em resumo, aprender é criar no córtex novas redes de neurónios.

O único agente capaz de construir essas redes é a própria pessoa, portanto, ele é o único formador existente para produzir a sua aprendizagem.
Só existe auto-formação. O professor é apenas um proponente, um fornecedor de situações de aprendizagem... nas quais o aluno só aprende se quiser...


Autoridade: como funciona?

A autoridade é o uso de poder para obter determinados comportamentos físicos ou verbais no desempenho de outrem. Existindo estes, infere-se que a atitude que os originou é aquela que o autoritário pretende, mas esta inferência é apenas um simples probabilidade que pode não ser verdadeira.

Ensinar uma criança a sorrir e a agradecer contente quando lhe dão uma prenda (comportamento), não significa que, por fazê-lo, esteja contente com a prenda (atitude). Se por processos autoritários se conseguir inserir uma submissão tal que esse comportamento nunca falhe, isso não significa que a criança fique sempre contente (atitude) com a prenda. A memória  e o automatismo provocam com eficácia o “show off”.

Um autoritário nunca pode existir se não tiver um submisso que lhe acolha e aceite o autoritarismo.
Quando se diz que é preciso uma pedagogia de autoridade, na prática o que isso quer dizer é que se vai fazer uma pedagogia de criação de submissos.
Na família, situação de maior proximidade nas consequências, a questão é saber se é uma pedagogia de submissão que queremos como alicerce para o desenvolvimento dos nossos filhos. Se é esse o perfil de personalidade que imaginamos para o seu futuro.
Uma pedagogia de autoridade no ensino além de prejudicar a aprendizagem, cria perfis de submissão, onde o conhecimento construído por memória e padronização (instrução??), eventualmente útil e operativo em situações rotineiras e estáticas, mas de difícil rendibilidade em situações de mudança e complexas, características dos tempos actuais.
O autoritarismo é sempre um processo de enquadramento e confinação da autonomia. Quando o modelo de funcionamento inerente à sociedade da informação e do conhecimento obriga à autonomia da decisão em tempo real por parte dos seus elementos, impedir essa autonomia com modelos autoritários é impedir o desenvolvimento.

Como a própria palavra expressa, “DES-envolver” é tirar o envolvimento, mas autoritarismo é colocar envolvimento, logo autoritarismo e progresso (desenvolvimento) são uma simbiose contra natura, que nunca é possível.

Assim, uma última questão: este tipo de ensino não será “um ensino contra-aprendizagem” ?


Ensinar: como fazer ?

Haverá outras formas de integrar ensino-aprendizagem?

Quando se ensina a “cavar batatas”, uma actividade que não exige a manipulação de muita informação circulante, bem diferente de pilotar um avião, é possível conseguir altos níveis de incorporação do conhecimento necessário através do uso de autoridade e imposição de mecanizações obrigatórias. Se um robot “recebe instruções” um humano também.

Porém, para guiar um carro, pilotar um avião, jogar um jogo de computador, desde que seja para fazer face a imprevistos, incertezas e mudanças aleatórias, eventuais automatismos incorporados (tipo piloto automático) obtidos por metodologias autoritárias não vão responder às  necessidades.

Mudanças, complexidade, imprevistos (e se são imprevistos, não podem ser previstos em automatismos) exigem outras capacitações, logo outras aprendizagens, portanto, outros ensinos.
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